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terça-feira, 26 de abril de 2011

A experiência de quem escreve bem

26/10/2010

Uma brasileira no New York Times

Vejam que bacana a entrevista abaixo, que a leitora Lanna fez por e-mail e nos enviou:


"Em meados dos anos 90, época em que começou o curso de Publicidade da PUC do Rio de Janeiro, a baiana Fernanda Santos, 37, não imaginava que anos depois seria a única repórter brasileira de um dos maiores jornais do mundo: o "The New York Times".
Ainda morava no Rio quando trabalhou em uma revista corporativa, mas como não era oficialmente jornalista resolveu fazer mestrado no exterior em 1998. A partir de então a trajetória profissional de Fernanda foi de persistência e constante aprimoramento.
Na entrevista a seguir ela conta ao Novo em Folha, entre uma dica e outra, seu percurso até chegar ao Times: foi um "longo namoro" que se consumou depois de muito trabalho como freelancer, inclusive escrevendo desde a Colômbia. Tudo para provar para o jornal que podia escrever matérias longas e escrevê-las bem.

Confira:



Lanna Morais, para o Novo em Folha - Quantos anos você tem? Onde se formou em jornalismo?


Fernanda Santos - Tenho 37 anos e não me formei em jornalismo, mas em publicidade, pela PUC-RJ. Entrei para a faculdade com planos de estudar jornalismo, mas acabei fazendo mais amigos entre os que iriam estudar publicidade e concluí – erroneamente, mas só mais tarde fui descobrir isso – que a redação publicitária poderia me satisfazer tanto quanto a redação jornalística. Por essa razão, nunca pude ser efetivada em nenhum jornal no Brasil. Acabei trabalhando como estagiária em um pequeno jornal no Rio de Janeiro, mas ganhei a vida como redatora de uma revista de comunicação empresarial, um emprego que me proporcionou viajar por partes do Brasil que nunca havia imaginado conhecer e a países da América Latina que nunca havia aspirado visitar.
Cheguei a pensar a voltar à faculdade para concluir os créditos que me permitiriam ser formalmente chamada de repórter, mas achei perda de tempo. Decidi então tentar o mestrado no exterior e foi assim que acabei vindo para os Estados Unidos, onde cursei o mestrado de jornalismo impresso na Boston University em 1998-1999.




NF - Na faculdade você já sabia mais ou menos em que área iria atuar? Se não, como descobriu?


FS - Parte dessa resposta está acima, mas queria acrescentar uma coisa importante, que é o que mais me fascinou – e me fascina – no trabalho de jornalista: a licença que temos para penetrar mundos alheios, mundos secretos, vidas privadas, e assim revelar para os leitores como vivem essas pessoas, o que lhes incomoda/afeta/entristece/alegra. Vejo o jornalista como uma espécie de intérprete, cuja funcão é de aprender, digerir e relatar os assuntos e acontecimentos que presencia. Como saberíamos sobre o resgate dos mineiros no Chile? Como saberíamos sobre a opressão aos grupos de oposição política no Irã? Ou sobre os estragos da enchente no Nordeste, ou os efeitos da seca na mesma região? Como é que uma pessoa de classe média que mora em um grande centro urbano poderia entender a dinâmica da vida no morro? Enfim, sem o jornalista, não sei se a gente ligaria tanto pelo que se passa fora da bolha que habitamos nessa grande bola que é o planeta Terra.




NF - Na época de estudante, qual era o seu veículo dos sonhos? Tinha a pretensão de um dia chegar ao NYT? Você está no país e no jornal há quanto tempo?


FS - Nunca sonhei em trabalhar no New York Times quando estava no Brasil nem cheguei a sonhar em trabalhar no New York Times até um ou dois anos antes de vir trabalhar aqui. Sempre fui muito realista e sempre estive ciente da profundidade e alcance do meu talento. Nunca tentei dar passo maior do que as minhas pernas. Arriscar é importante, mas sou partidária do risco responsável. Quando contactei o NYT pela primeira vez, sabia que o conjunto do meu trabalho era abrangente o suficiente, e tinha suficiente qualidade, para competir com os trabalhos dos muitos outros jornalistas que queriam trabalhar no jornal.
Minha trajetória aqui foi clássica. Comecei em um jornal pequeno, cobrindo duas cidadezinhas no oeste do Massachusetts. Depois mudei para um jornal um pouco maior, em outra parte do estado. De lá vim para Nova York, para trabalhar como repórter no Daily News, onde cheguei recomendada por jornalistas que conheci durante a minha cobertura do 11 de setembro em Nova York; estava visitando amigos na cidade nessa data e acabei ficando para fazer reportagens. A conversa com o NYT começou depois que um dos seus repórteres elogiou uma matéria minha e mencionou o meu nome para a caça-talentos do jornal. Foi um namoro longo, que me levou a sair do Daily News e passar uns meses fazendo reportagens na Colômbia, como freelancer, para poder provar que podia escrever matérias longas e escrevê-las bem. (O Daily News tem formato tablóide, portanto suas matérias são  bem mais curtas que as do NYT.)
Fui contratada em setembro de 2005, portanto estou no NYT há 5 anos.




NF - Ter uma experiência de trabalho internacional é algo que muita gente gostaria. Como foi que surgiu a oportunidade de trabalhar nos EUA? E no NYT? É muito diferente de uma redação brasileira?


FS - Me pergunto por que tantos brasileiros querem trabalhar para meios estrangeiros, pois penso que seria muito legal trabalhar para um meio brasileiro no exterior. Eu adoraria voltar para o Brasil. O país é tão rico em histórias, tão cheio de pessoas fascinantes, de dramas de quebrar o coração e também de incríveis sucessos e vitórias.
Não sei se a redação daqui é diferente da redação daí. Nunca trabalhei em uma redação de jornal brasileiro.
Vim para cá para fazer o mestrado e o meu objetivo era de voltar e tentar usar o diploma do mestrado para obter a equivalência e sair buscando trabalho em jornais daí. Um dos meus professores na Boston University me disse que, como estudante estrangeira, tinha direito a um visto de trabalho de 1 ano para trabalhar na área que estava estudando. Achei que deveria aproveitar a oportunidade e ganhar experiência prática, então fui a uma conferência de jornalismo e conheci alguns editores de jornais, até que um me ofereceu um estágio de 3 meses e me efetivou no final. Nesse meio tempo, conheci o meu marido, que era jornalista na época (hoje trabalha em relações públicas). Me apaixonei, casei e nunca mais voltei. Estou casada há 10 anos e tenho uma filha de 1 ano e 4 meses, a Flora, que já fala palavrinhas em português, inglês e espanhol (sua babá é colombiana).




NF - Você escreve para qual editoria?


FS - Escrevo para a editoria Metro, que cobre primeiramente Nova York, mas também Nova Jersey e Connecticut.




NF - Você escreve textos extensos em um inglês impecável. Como aprendeu?


FS - Essa é uma pergunta que não sei responder. Aprendi inglês em cursinho no Rio, mas aprendi mesmo depois que mudei para os EUA. Li e leio muito para adquirir fluência. No começo acho que era claro para quem lia as minhas matérias que inglês não era o meu idioma nativo. Ainda não me sinto 100% e acho que nunca me sentirei, mas funciono bem nas duas línguas, e também no espanhol, que sou fluente. Aprender a escrever em outro idioma não é fácil, mas não é tão difícil se você se dedicar e for humilde. Eu nunca me senti ofendida quando um amigo, um editor ou mesmo o meu marido, que é americano, me corrigiam (e corrigem ainda). Pelo contrário: faço questão que as pessoas me digam se eu não falei algo bem.
O inglês é um idioma que adoro, muito gostoso para escrever, mas acho o português ainda mais rico.




NF - Você trabalha também para a Globo, ou seja, se comunica, também, com o Brasil. Há muita diferença entre escrever para o público americano e o brasileiro?


FS - A diferença principal é o idioma e confesso que é uma delícia poder escrever e falar português profissionalmente. Tinha saudades disso.




NF - Como foi que surgiu a oportunidade de trabalhar na TV? É tranquilo conciliar o NYT e o Globo News em Pauta?


FS - É uma loucura para conciliar os dois trabalhos, principalmente quando estou em deadline e ainda mais agora que o programa começa mais cedo por aqui, por conta do início do horário de verão no Brasil. Vai ser ainda pior em novembro, com o fim do horário de verão em NY, mas vamos lá! Vou levando até que dê. Normalmente, eu me maqueio no metrô, onde é também onde leio o material que coletei para me preparar para o programa. A correria é enorme, mas adoro ter essa conexão com o meu país.
Eu recebi uma ligação de um dos produtores da Globo por aqui, me convidando para uma conversa. Não sei como chegaram a mim, mas sei que sabiam que eu era brasileira e imagino que tenham achado interessante ter uma brasileira que é repórter do NYT como comentarista do Em Pauta.




NF - O Jornal do Brasil recentemente acabou com sua versão impressa. Essa questão do fim ou não do jornalismo impresso tem preocupado muito os estudantes de jornalismo aqui no Brasil. Como essa questão é vista aí nos EUA? Há uma preocupação? Você acha que o fim está próximo para as publicações impressas?


FS - Acho que as publicações impressas acabarão um dia, mas o jornalismo não, portanto o estudante não deve se preocupar e sim tentar cada vez mais aprender a ser jornalista usando as tecnologias disponíveis – programas de edição de blogs, audio e vídeo para Web, etc. O jornalista do futuro será um jornalista multimídia. A ideia de jornalista como o profissional que escreve para jornal é ultrapassada.




NF -  Você é, com certeza, um ótimo exemplo para os futuros jornalistas, afinal, trabalha em dois veículos de extrema importância. Que conselho você daria aos estudantes de jornalismo de hoje em dia? Tem alguma dica de leitura, algo que julgue essencial para a formação de bons profissionais?


FS - Prática e humildade. Vou explicar. Ler é bom, principalmente se a leitura é de matérias escritas por outros jornalistas – em revistas literárias, como a Piauí e a New Yorker; em revistas de notícias, como a Veja e a The Economist; em blogs, como o Huffington Post e Politico; e em jornais. Aconselho a ler um pouco de tudo, incluindo publicações cuja linha editorial o leitor não esteja de acordo. Sempre digo que para discordar com eficiência, o jornalista tem que saber como pensa o outro lado do debate, a outra facção. Discordar gritando é coisa de gente desinformada. Leia, por exemplo, os editorias do NYT e do Wall Street Journal para ver como duas das mais respeitadas publicações do mundo abordam o mesmo assunto de maneira totalmente diferente.
Acho o curso de jornalismo no Brasil, no geral, muito teórico. Jornalismo se aprende na prática, portanto trabalhe para o jornal da faculdade, faça estágios, escreva artigos freelancer mesmo que seja para o jornalzinho do seu bairro. Isso vai lhe dando experiência e lhe proporciona também colecionar clippings que você pode mostrar para um editor quando estiver procurando emprego.
Humildade é essencial porque mesmo quando você estiver entrevistando um analfabeto, pobre, desempregado, morador de favela, você não pode se esquecer de que essa é a pessoa que tem uma história para contar.Se você fosse melhor que ela, não estaria ali. Uma das coisas mais sensacionais do jornalismo é que nos mostra que, no fundo, no fundo, somos todos iguais.



Acompanhe o trabalho da Fernanda pelo Twitter (http://twitter.com/fernandaNYT), Facebook (http://www.facebook.com/FernandaNYT) e Globo News em Pauta (http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,JOR402-17665,00.html) - onde ela participa como correspondente três vezes por semana.
Assista à entrevista que Fernanda deu para a Revista Imprensa: Parte 1 (http://www.youtube.com/watch?v=w6R6-eu2nkI) e Parte 2 (http://www.youtube.com/watch?v=-14XGJDOjZk&feature=related)"
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h15


Exercício: Faça uma nota-resumo deste texto em no máximo dois parágrafos (média 10 linhas).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Resumo de entrevista em vídeo - Clóvis de Barros

Aluno em atividade: 


Assista aos sete vídeos da entrevista com Clóvis de Barros Filho e elabore um texto apontando os principais conceitos trazidos pelo entrevistado. (Limite de uma página).

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Estudo inglês mostra que o Brasil é país das mãos leves

O país das mãos leves

Estudo inglês mostra que o Brasil só perde para a India em prejuízos causados por pequenos furtos em lojas. A explicação vai além da clássica lei de Gérson



Se for verdade que a lassidão moral da elite política apenas reflete as condutas da sociedade em geral, os brasileiros precisam se submeter a um choque de ética. Um estudo divulgado na semana passada pelo Centro de Pesquisa em Varejo da Inglaterra. concluiu que o Brasil é o segundo país que mais perde dinheiro com pequenos furtos em lojas, ao lado do Marrocos e superado apenas pela Índia. Entre julho de 2009 e junho de 2010, as principais redes varejistas brasileiras registraram 3.9 bilhões de reais em perdas com esse tipo de crime, o equivalente a 1,64% do total do faturamento. 




Por Julia Carvalho





Em um negócio em que a margem de ganho é apertada, esse número significa a diferença entre o lucro e o prejuízo. No caso dos supermercados e farmácias, por exemplo, para cada item roubado, outros cinco iguais precisam ser vendidos para compensar o dano.



A pesquisa comparou os dados sobre furtos em lojas de 42 países. Taiwan registrou o índice de perda mais baixo. 0,879. O desempenho do Brasil é vergonhoso: nossos consumidores surrupiam mais do que os de outras nações em desenvolvimento, como México, Tailândia e Argentina. A compulsão por roubar sem necessidade não explica esse comportamento. "Não há nenhum indício de que existam mais cleptomaníacos no Brasil do que no resto do mundo. Isso aponta para uma razão cultural para o fenômeno", diz a psicóloga Marisa de Abreu. de São Paulo. O senso comum diria que a lei de Gérson. a de querer levar vantagem em tudo, é intrínseca ao brasileiro. A busca pelo beneficio próprio, no entanto, não é exclusividade do povo que vive entre o Chui e o Oiapoque.



O problema é a noção, enraizada na mentalidade nacional. de que as instituiç0es devem servir aos seus propósitos pessoais. não para organizar a vida em sociedade. no caso dos órgãos públicos.ou para prestar um serviço pago a população, no caso da iniciativa privada. "Muitos clientes se sentem no direito de levar alguns produtos sem pagar porque consideram estar fazendo um favor de comprar naquela loja", diz Gustavo Messiano Velehov, diretor-geral da filial brasileira da Checki point Systems, empresa americana de equipamentos de segurança que patrocina o estudo global sobre furtos. Para não ficarem com a consciência pesada, partem do princípio de que, perto do tamanho do estoque da loja, um único item não vai fazer falta.



Os consumidores contam. muitas vezes, com a conivência dos empregados das lojas para quem não compensa arrumar confusão com cliente para defender o patrimônio do patrão. "Empresas americanas como a Limited Brands, dona da marca de lingerie Victoria"s Secret, investem no treinamento dos funcionários para resolver esse problema, diz Nuno Fouto, diretor de pesquisa do Programa de Administração de Varejo (Provar). da Fundação instituto de Administração. O treinamento tem como efeito também diminuir os crimes internos. porque os empregados passam a se sentir responsáveis pela empresa. Esse aspecto é especialmente preocupante no Brasil, onde quatro em cada der furtos dentro das lojas são feitos pelos próprios funcionários.



Nos Estados Unidos, o shoplifting, como é chamada a prática dos pequenos furtos. é combatido com modernos sistemas de vigilância e alarmes. A parafernália já revelou alguns ilustres bandidinhos, entre eles a atriz Winona Ryder e a cantora Britney Spears. Em agosto deste ano, Caroline, filha do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, foi presa por furtar 100 dólares em maquiagens e cosméticos. Seu pai é autor da política de tolerância zero com a criminalidade na cidade americana. Faltou. como falta no Brasil, ensinar tolerância zero em casa. 


Fonte: Revista Veja, de 27 de outubro de 2010.

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Exercício: Faça uma síntese da matéria acima (entre 6 e 10 linhas).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Faz algum sentido?

A gente só é capaz de compreender o significado da vida quando olha a existência sob outra perspectiva

texto Liane Alves | fotos Raquel Espírito Santo | design Kareen Sayuri

Depois de 7,5 milhões de anos de cálculos, o ultracomputador desenvolvido exclusivamente por uma raça de seres estelares para responder qual é “o sentido da vida, do universo e de tudo o mais” finalmente dá sua resposta. Anunciada “com majestade e calma infinitas”, o Pensador Profundo – esse é o nome do computador, de acordo com o Guia do Mochileiro das Galáxias, escrito por Douglas Adams – fornece a chave que irá desvendar o principal enigma do cosmos. E a resposta dele para o sentido da vida é... 42. Isso mesmo, o número 42. O que suscita outras dezenas de milhões de perguntas, que podem ser resumidas numa só: “42 o quê?!?”

Esse é o problema. Para entender o sentido da vida – e, por enquanto, vamos admitir que ela tenha um –, é preciso compreender algo que não está diretamente contido na própria vida. Como o arco-íris, que não existe por si mesmo, mas que é apenas o resultado da interação entre nosso olho e a refração da luz nas gotículas de água, o significado da existência também nasce de uma parceria entre nós e aquilo que achamos que é a realidade. É uma atribuição ao que vivemos e experimentamos. Portanto, o número 42 como resposta, assim como a própria vida, pode não ter sentido nenhum. Somos nós que atribuímos, ou não, um significado para ele, com base no que vivenciamos e entendemos do mundo.

Por que será que precisamos tanto atribuir um valor especial para a vida? E quais os fatores que nos ajudariam a vivê-la mais plenamente? Bom, aí já dá para responder.

Quando comecei a refletir sobre esta reportagem, lembrei-me de Deus. Mais especificamente, das primeiras páginas do Gênesis. Depois de haver criado céus e terra, peixes, animais, florestas e o ser humano, Ele teve um momento de contemplação. Olhou para sua criação e viu que tudo aquilo era bom. Foi a primeira atribuição de sentido para a vida: a de que ela era simplesmente boa. Não importa se no pacote vieram dor de dente e uma vaga atrás da coluna na garagem do prédio. No geral, ela é boa e generosa. No particular, pode incluir problemas.

“Mesmo quando achamos que a vida não tem nenhum sentido, estamos atribuindo um sentido para ela: o de que a existência é absurda, caótica, sem significado ou coerência”, diz a psicóloga paulista Karen Jimenez. Bom, ela tem razão. Esse olhar já carrega um monte de sentidos, inclusive. Ao contrário de Deus contemplando sua criação, muitas pessoas acham que vida é ruim, injusta, desagradável e até negativa. E, para a maioria delas, essa apreciação é deprimente. “Ela pode levar a um desânimo total”, diz Karen.

Agora, sugere Karen, pergunte para uma pessoa que está vivendo uma grande paixão o que ela acha da vida. Ou a uma criança brincando num parquinho. Ela nem vai querer perder tempo em responder a essa questão, tão interessada que está em viver. “Quem acha que a existência não tem sentido é porque perdeu seu encantamento por ela. Está desapaixonado pela existência. E qualquer coisa que não nos apaixona automaticamente nos desinteressa.” Nessa condição, tudo fica cinzento, com cara de dia nublado. “Somos seres que precisam de significado, seja no trabalho, seja nos relacionamentos ou nos seus projetos.” O sentido ativa nossa emoção – como o nome diz, aquilo que nos move para a ação. “Ele nos devolve o prazer, o desejo de interagir, de criar”, diz Karen.

Um dos segredos, então, é se apaixonar novamente por ela, descobrir seu encanto. Esse estado de graça geralmente nasce de uma harmonia interior, essencialmente espiritual, que se traduz depois numa harmonia exterior. Como diz Sócrates, em Fedro, na sua pungente prece: “... ajudai-me a buscar a beleza interior e fazer com que as coisas exteriores se harmonizem com a beleza espiritual”. Para a maioria de nós, esse sentimento de plenitude surge quando sentimos que estamos realizando o propósito do que viemos fazer nessa vida, algo que é único e individual. Aí a existência se reveste de sentido e beleza. “Imagine que o único propósito da vida seja só sua felicidade – então a existência seria uma coisa cruel e sem sentido. Porém, seu intelecto e seu coração lhe dizem que o significado da vida é servir à força que o enviou o mundo. Então, quando isso acontece, a vida se torna uma alegria”, escreveu o russo Leon Tolstoi.

Por que será que funcionamos assim? Por que o absurdo e a falta de sentido da vida nos incomodariam tanto?


Uma teoria, por favor

Quando a vida viola nossa lógica e expectativa, quando ela foge daquilo que supomos que aconteceria, mergulhamos num sentimento que o filosófo dinarmarquês Soren Kierkegaard descreveu como uma inquietante “sensação do absurdo”. É algo tão desagradável, tão desorientador, que o cérebro imediatamente se prepara para desenvolver uma coerência para aquilo que nos tirou do chão. “Ficamos tão motivados em nos livrar dessa sensação que passamos a procurar significado e coerência em qualquer outro lugar”, diz Travis Proulx, pesquisador da Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia, envolvido com estudos sobre como o absurdo molda o cérebro humano. Em entrevista ao jornal The New York Times, ele diz que cérebro é programado para identificar padrões e predizer o que está para acontecer com base neles. Os padrões nos dão um sentido, algo muito útil desde que o ser humano desceu das árvores e se colocou em contato direto com leões e outros predadores. Enfim, somos treinados para antever que isso mais aquilo só pode dar naquilo. Agora, imagine o que acontece quando a vida diz o contrário? De certa forma, enlouquecemos.

Além disso, o cérebro é reacionário. Ele “gosta” de padrões, de algo que se repete e que lhe permite fazer previsões, pois funciona a partir delas. E são justamente as sequências previsíveis que permitem a leitura de um significado. “Quando os padrões se rompem (por exemplo, quando alguém tropeça em algo inesperado, como uma poltrona de plástico no meio de uma floresta), imediatamente o cérebro passa a tatear por algo que faça sentido”, diz o pesquisador. Ou seja, passa a formular hipóteses, um dos passatempos prediletos da humanidade. Não nos conformamos facilmente com algo sem explicação.

Porém, mesmo quando estamos confusos e desesperados, e quando a vida parece não ter significado algum, algo pode ocorrer. As enfermeiras francesas Rosette Poletti e Barbara Dobbs, no livro Dar Sentido à Vida, falam da importância dos acontecimentos inesperados que podem mudar radicalmente nosso olhar sobre a existência, para melhor. “Mesmo numa vida que está indo à deriva, quando uma pessoa não leva mais adiante nenhuma busca de sentido, não acredita mais em seu futuro, não espera mais nada e quando nada mais tem significado para ela, sempre existe a possibilidade de uma reviravolta inesperada, surpreendente e, às vezes, milagrosa”, afirmam elas, que, inclusive, acompanharam muitos desses casos. O que as autoras afirmam é que o inexplicável pode sempre acontecer e mudar completamente uma convicção, uma situação, um jeito de ser. Isto é, algo improvável pode ocorrer e ser capaz de nos dar novamente um sentido à vida. É sempre bom ter essa possibilidade em mente.

O andar do bêbado

O problema é que a existência também parece estar cheia de fatos aleatórios, não previsíveis e sem significado aparente. Essa falta de sentido é tão perturbadora que outro pesquisador, o físico Leonard Mlodinow, da Universidade de Berkeley, na Califórnia, se dedicou a escrever um livro inteiramente sobre como o acaso atropela e muitas vezes determina nossas vidas. O título é ótimo: O Andar do Bêbado. Diz o autor que a vida pode ser tão previsível quanto os passos de alguém que bebeu muito depois de uma festa. Ou que eles podem até ter um sentido. Mas que pode demorar muito para a gente saber qual. A tarefa a que o físico se propõe é falar sobre as leis que regem o acaso aparente, devolvendo um sentido à vida ao sustentar que eles não são tão aleatórios, imprevisíveis e caóticos assim. Isto é, que eles têm uma causa.

Ele também reconhece que a falta de significado existencial pode mexer muito com nosso equilíbrio emocional. “De fato, a resposta humana à incerteza é tão complexa que, por vezes, distintas estruturas cerebrais chegam a conclusões diferentes e aparentemente lutam entre si para determinar qual delas dominará as demais”, diz Mlodinow. Ou seja, ficamos confusos num mar de suposições de probabilidades. E tendemos a nos guiar pelas estatísticas: se determinada coisa aconteceu quatro vezes, é bem provável que também acontecerá uma quinta. Ou, então, a seguir a intuição, que muitas vezes desdiz o senso comum. O físico desconfia dessas duas respostas. Ele acha que por trás da aleatoriedade funcionam outras regras, que pouco têm ver com a intuição ou o senso comum. E que conhecê-las nos ajuda a compreender a existência. “A capacidade de tomar decisões e fazer avaliações sábias diante da incerteza é uma habilidade rara. Porém, como qualquer habilidade, pode ser aperfeiçoada pela experiência”, diz ele.

O acaso não é por acaso

Uma das primeiras leis a se conhecerem, por exemplo, está baseada na Teoria dos Jogos, elaborada por um psicólogo, Daniel Kahneman, que, contra todas as probabilidades, acab ou ganhando o Nobel de Economia em 2002. Aconteceu algo extraordinário com ele. Indicado para dar apoio psicológico a professores de pilotos de caça israelenses pela Universidade Hebraica, ele logo imaginou ensinar aos instrutores de pilotos a estratégia de recompensar comportamentos positivos em vez de punir equívocos, prática que funciona muito bem com ratinhos de laboratório. Mas um de seus alunos-instrutores discordou veementemente. “Muitas vezes elogiei meus alunos por manobras bem executadas, e na vez seguinte os pilotos sempre se saíam pior. E já gritei com eles por manobras mal executadas, e eles melhoraram logo em seguida”, disse ele.

Essa reclamação espontânea foi o primeiro passo para o Prêmio Nobel de Kahneman. Em vez de impor suas ideias, ele foi atrás da razão por que acontecia isso – isto é, do sentido. E observou que estava diante de um fenômeno chamado de regressão à média. Descobriu que desempenhos extraordinários – tanto ruins quanto bons – eram pura questão de sorte ou azar, já que a tendência dos pilotos aprendizes era ter um desenvolvimento médio que evoluía lentamente. E que no dia seguinte após de um grande feito, ou um fracasso, a tendência era voltar à média. Por isso o instrutor tinha a impressão de que o elogio não funcionava, pois no dia seguinte o piloto voltava ao desempenho normal e não conseguia repetir seu feito. Também por isso é que ele pensava que a bronca dava certo – pois após uma barbeiragem a tendência do piloto era voltar à média e “melhorar”.

O que Leonard Mlodinow explica em seu livro são as diversas leis, segundo vários autores e cientistas, que agem com relação à aleatoriedade. Em outras palavras, o acaso existe, mas há muitas leis que o regem que desconhecemos. Em outras palavras, ele diz que o acaso não é caótico nem absurdo, mas que segue leis complexas que ainda não conseguimos desvendar. Isso complica um pouco as coisas, que não são tão simples e diretas quanto podemos imaginar e prever. “Sei que a vida parece ter sentido, mas não sei exatamente qual”, diz com sinceridade o administrador de empresas paulista Fabio Constantino Magalhães. “Acho que levaria muito tempo para compreendê-la e mais tempo ainda para poder manipulá-la”, afirma. Sabiamente, ele admite seus imprevistos e acasos e não se horroriza mais com eles. “Nunca vou conseguir controlá-los, mesmo”, diz. Prefere então levar a vida com senso de humor, acreditando num sentido maior favorável e generoso, mas não necessariamente explícito e identificável para nós. Em resumo, mesmo não dominando as leis que regem o acaso, e tomando decisões imperfeitas e fazendo muitas bobagens, é possível que a existência, ainda assim, esconda um sentido oculto. O filosófo alemão Arthur Schopenhauer dizia que, perto do fim da vida, temos a chance de olhar para trás e contemplá-la. Dessa maneira vamos perceber como cada evento, que se acreditava ser apenas uma nota isolada e sem relação com as outras, na verdade fazia parte de uma grande e bela sinfonia. Como todos aqueles que acham que a vida tem sentido, espero que ele tenha razão.


Do caos à prática

Sempre vai haver alguém para tentar explicar o significado da existência, mesmo afirmando que ela não tem sentido algum. Um dos maiores exemplos da ala dos que defendem o absurdo total da existência é o anárquico grupo de comediantes inglêses Monty Python. Nas primeiras cenas do filme O Sentido da Vida, realizado por eles, vemos um velho prédio que desliza por Manhattan, na verdade uma caravela repleta de piratas disfarçada. Os bucaneiros invadem a sala principal da Mais Grande (sic) Corporação das Américas enquanto Harry, um dos melhores executivos da empresa, explanava sobre o sentido da vida com base em dois conceitos fundamentais: o de que as pessoas não usam mais chapéus como antigamente e de que a alma só passa a existir depois de um longo processo de autoobservação. Executivos e piratas entram em luta, o narrador do filme pede desculpas por um início tão caótico, um prédio cai por cima do escritório-navio e a fita começa de novo. Para os integrantes do Monty Python, só o absurdo pode explicar o absurdo existencial.

Esse tema também é muito caro aos fi lósofos. E para um historiador da filosofia, o inglês Julian Baggini. Competente e hábil nas tiradas típicas do humor britânico, ele escreveu o livro Para Que Serve Tudo Isso?, em uma notável tentativa de explicar o que os filósofos já falaram sobre o sentido da vida. Que, para ele, como para seus compatriotas do Monty Python, também não tem signifi cado algum. Mesmo assim, é uma delícia acompanhar seu raciocínio. Ao fazer isso, Baggini parece uma dona de casa inglesa de meia-idade que entra num quarto desarrumado para tentar organizá-lo, enquanto resmunga: “Céus, esses filósofos deixaram isso aqui um caos! Olha que ba-gun-ça!” Posso imaginá-lo examinando Soren Kierkegaard como se fosse um vaso de Murano e dizendo: “Esse aqui eu vou colocar ali! Sartre com aquelas teorias existencialistas, vou pôr perto da entrada, para não atrapalhar depois, e Schopenhauer vai ficar melhor ali, ao lado da felicidade...” Assim Baggini vai espanando, trocando móveis de lugar, colocando fora o que não interessa. Quando a gente termina o livro, está tudo arrumadinho. Pode não ser do nosso gosto, mas numa coisa ele tem razão: é melhor pensar num quarto limpo.

Depois de afastar a possibilidade da existência de um universo com propósito e significado já no primeiro capítulo e, com isso, a negar a hipótese de Deus (não é preciso concordar com ele, por sinal), Baggini navega por mares interessantes e insuspeitados, levando em conta toda a história da filosofia. Pode-se discordar, mas ele dá uma excelente base de discussão e nos ensina a raciocinar. No fim, ele próprio reconhece: “Temos que sair e viver a vida, e não conseguiremos fazê-lo se estivermos pensando inutilmente ‘para que serve tudo isso’”. Ele reconhece que a filosofia serve para se raciocinar sobre a vida e que isso é legal – se não ocupar tempo demais.

Em vez de se perder em elucubrações, Baggini propõe algo bem mais prático: amar. “O amor dá sentido à vida mesmo que ela não tenha sentido ou propósito”, afirma. “O amor – em todas suas formas – é crucial para os seres humanos e uma das coisas que fazem com que valha a pena existir.” Com ele é mais fácil enfrentar a incerteza, a fragilidade e a imprevisibilidade da existência, diz Baggini. Num dos seus contos, outra vez o escritor russo Leon Tostoi dá as chaves para que a vida tenha sentido: priorizar o que está acontecendo a cada instante, considerar como a mais importante do mundo a pessoa que está a seu lado naquele momento e fazer tudo que estiver ao seu alcance para torná-la feliz.

Ou, como diz Robin S. Sharma no livro Descubra seu Destino, ouvir o chamado do seu propósito de vida, transformar as provações diárias em experiências recompensadoras e saber amar. Nas palavras de Baggini, degustar a vida e vivê-la com amor. Parece que pelo menos nisso dá para concordar com eles.

Produção: Mario Mantovanni | Assistente: Gabriel Fernandes | Ensaio inspirado no trabalho do fotógrafo Steph Goralnick


Veja uma seleção de trechos no Youtube do filme O Sentido Da Vida do grupo de comediantes inglês Monty Phyton.







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Exercício:
Após leitura atenta da matéria extraída da Revista Vida Simples faça um resumo/síntese com no máximo 10 linhas e poste nos comentários desta mensagem.


Participe do fórum respondendo à questão abaixo:






Série: "Grandes temas"FÓRUM: O que você faz quando a vida parece não ter sentido?


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Importância do Ato de Escrever no Ensino de Língua Portuguesa

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo ressaltar a importância do ato de escrever no ensino da língua portuguesa na universidade, levando-se em consideração que a modalidade escrita é fundamental no exercício profissional de várias pessoas. Atualmente, exige-se do profissional redação própria, ou seja, a capacidade de passar para o papel seu trabalho ou de se comunicar com outras empresas a partir da modalidade escrita de forma clara. Contudo, é necessária muita leitura e conhecimento das possibilidades da língua, pois até mesmo um texto prosaico pode ser original, no sentido de passar a quem o lê a personalidade de quem o escreve.

No entanto, sabe-se que, para muitos, o ato de escrever não é agradável, pois a pouca ou total ausência da modalidade escrita foi uma das lacunas deixadas pelos ensinos fundamental e médio. Antes a ênfase nas nomenclaturas reduzia o espaço da interpretação, da leitura e da escrita, de forma que o aluno não conseguia, quando solicitado, utilizar os recursos gramaticais ensinados. Não cabe à universidade resolver as lacunas deixadas pelos ensinos fundamental e médio, mas sim despertar aqueles que têm dificuldade ao escrever, fazendo com que esses leiam, escrevam bastante e consigam, ao longo dos anos e com a prática, sanar esse mal da escrita. Para isso, a produção de textos deve fazer parte da rotina acadêmica. Após a leitura de um poema, de um trecho de um romance, de um texto científico, de uma reportagem, ou, até mesmo, após um debate, o educando sentir-se-á estimulado a elaborar um texto sobre o tema sugerido.

Com tudo isso, a importância deste estudo está ligada à possibilidade de orientar a organização de programas de língua portuguesa, no que diz respeito à relevância da produção de textos dentro e fora das aulas de redação. Assim, o presente estudo poderá ser aproveitado por professores de língua portuguesa, supervisores pedagógicos e pessoas responsáveis pela elaboração de currículos em nível de sistemas (particular, estadual e federal), visando ao melhor domínio da expressão escrita por parte dos alunos. O Ensino Da Língua Portuguesa: O Ato De EscreverO ensino de língua portuguesa já sofreu uma série de mudanças ao longo dos anos, mas, hoje, mais do que nunca, é preciso repensar o papel do ensino da língua na universidade, a fim de que se possa ter um profissional ciente das questões gramaticais que envolvem um texto e apto a escrevê-lo com coesão e coerência.

Para Feitosa (2000), "escrever é parte inerente ao ofício do pesquisador" e não costuma ser tarefa fácil para ninguém. Normalmente, as pessoas "sofrem" muito quando têm que colocar suas idéias no papel.


Parece que a primeira razão para esse "sofrimento" está naquilo que é, ao mesmo tempo, causa e efeito da crise em que se encontra a comunicação escrita: a pouca eficácia do ensino de redação nas escolas e a falta de treinamento específico para a redação científica, decorrentes de total desprestígio em que caiu a língua escrita como meio eficiente de comunicação. Hoje, "falam" os números, os dados estatísticos, as fotos, os gráficos, os VTs. (Feitosa, 1991, p.12 )

Não se pode esquecer de que , durante muitos anos, o ensino da língua não se destinou à produção, à leitura e à interpretação de textos, mas sim se limitou a exigir do aluno as nomenclaturas gramaticais, uma vez que essas eram, e continuam sendo, exigidas pelo vestibular e pelos concursos em geral. O resultado de tal postura foi um universitário que mal sabe escrever e, o pior, que pode passar quatro anos na universidade sem sabê-lo.

Atualmente, a sociedade exige do profissional, seja ele engenheiro, advogado, jornalista, dentista, analista de sistemas ou professor, a capacidade de passar para o papel todos os seus estudos, divulgando assim o seu trabalho. Para isso, é preciso alguns conhecimentos específicos da elaboração da redação e, o principal, exige de qualquer um muita leitura. Escrever significa comunicar-se e, todos sabem que, nas empresas e instituições a comunicação se faz, muito mais, através da modalidade escrita do que da oral.

Por outro lado, em inúmeras faculdades, o que se vê são pessoas, quase formadas, com dificuldade de escrever um texto. Esta dificuldade se explicita, quando o profissional tem de fazer uma pós-graduação, em que o exercício de escrita é uma constante; ou quando ele é solicitado a escrever um relatório, uma declaração, ou um outro documento na empresa. No momento em que estes questionamentos se colocam, pensamos por que estas pessoas, formadas por uma instituição, não conseguem escrever com certa tranqüilidade e atender às necessidades exigidas pelo mercado de trabalho ou pelas instituições de pós-graduação.

É importante esclarecer que o cerne do problema de se fazer uma boa redação não está diretamente ligado à universidade, e sim aos ensinos fundamental e médio. Contudo, este problema é levado até à faculdade e os docentes de língua portuguesa, matéria não encontrada em todas os cursos de graduação, não procuram, geralmente, fazer nada para sanar este "mal da escrita". Ao final do curso, o que se tem é um profissional incapaz de escrever bem o que aprendeu. Incapaz de dissertar com segurança gramatical e estrutural a respeito de um tema apresentado.

Não se pode deixar de lembrar que o estudo gramatical é importante para a elaboração de um "bom" texto. Assim, para se escrever "bem" o texto deve-se saber utilizar, corretamente, os sinais de pontuação, deve-se saber ortografia, acentuação; deve-se saber o uso da crase; deve-se fazer as concordâncias verbal e nominal; deve-se saber regências verbal e nominal; além de se fazer um texto com os dois elementos mais importantes: coesão e coerência. Sem estes dois elementos, o texto perde a intenção de comunicação, ou melhor, de intercomunicação.

Para BECHARA ( 2001) , o enunciado não se constrói com um amontoado de palavras e orações. Elas se organizam segundo princípios gerais de dependência e independência sintática e semântica, recobertos por unidades melódicas e rítmicas que sedimentam estes princípios. Dessa forma, entende-se que não é só escrever diversas frases e se ter um texto, mas é imprescindível unidade, é preciso que estas frases sejam coesas e coerentes e então somem um texto.

A essência do problema é verificar o ensino de língua portuguesa na universidade no que diz respeito à produção de textos, ou seja, mais especificamente, ao ensino de redação dissertativa objetiva na universidade.

A Língua como Expressão Simbólica

Para Celso Cunha, a língua "é um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos. Expressão da consciência de uma coletividade, a LÍNGUA é o meio por que ela concebe o mundo que a cerca e sobre ele age".

Pelo que se sabe, a língua apresenta variações diatópicas (variantes regionais, falares locais etc.), variações diastráticas (nível culto, nível popular, língua padrão, etc.) e variações diafásicas (língua escrita, língua falada, língua literária, etc.). Contudo, cabe perceber dentro dessas variações internas o contexto para a utilização da língua. Deve-se ter presente que "a língua padrão, por exemplo, embora seja uma entre as muitas variedades de um idioma, é sempre a mais prestigiosa, porque atua como modelo, como norma, como ideal lingüístico de uma comunidade". (CELSO, 1985)

Em contrapartida, a língua não é apenas um meio de comunicação, pois não vive só da função denotativa (informativa). Para Mikhail Bakhtin, Roland Barthes e outros, a linguagem escrita tem outra função grandiosa: a de transgredir a norma, o poder institucionalizado pela gramática, e tem como função maior a expressividade, como se pode constatar no trecho a seguir:


A lingüística do século XIX - a começar por W. Humboldt - , sem negar a função comunicativa da linguagem, empenhou-se em relegá-la ao segundo plano, como algo acessório; passava-se para o primeiro plano a função formadora da língua do pensamento, independente da comunicação. Eis a célebre fórmula de Humboldt: "abstraindo-se a necessidade de comunicação do homem, a língua lhe é indispensável para pensar, mesmo que estivesse de estar sempre sozinho". A escola de Vossler passa a função dita expressiva para o primeiro plano. Apesar das diferenças que os teóricos introduzem nessa função, ela, no essencial, resume-se à expressão do universo individual do interlocutor. A língua se deduz da necessidade do homem de expressar-se, de exteriorizar-se. A essência da língua, de uma forma ou de outra, resume-se à criatividade espiritual do indivíduo. (Bakhtin, 2000, p.291)

Assim como Bakhtin, Barthes atribuiu à língua uma função maior que a simplesmente de comunicar, viu na língua o "objeto em que se inscreve o poder", afirmando que "a linguagem é uma legislação" e "a língua é seu código". Continuou afirmando que "não vemos o poder que reside na língua porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva". Diz ainda que a língua é fascista, pois não impede o sujeito de dizer, mas obriga-o a dizer. Barthes vê a língua como símbolo do poder e objeto de alienação humana. Para ele, a literatura é a única forma de trapacear a língua. Vejamos o que o escritor entende por literatura:


Entendo por literatura não um corpo ou uma seqüência de obras, nem mesmo um setor de comércio ou de ensino, mas o grafo complexo das pegadas de uma prática de escrever. Nela viso, portanto, essencialmente, o texto, isto é, o tecido dos significantes que constitui a obra, porque o texto é o próprio aflorar da língua, e porque é no interior da língua que a língua deve ser combatida, desviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo das palavras de que ela é o teatro. Posso portanto dizer, indiferentemente: literatura, escritura ou texto". (Barthes, 2000, p.16 - 17)

Com esse trecho, percebe-se que Barthes encontra na literatura a liberdade necessária para a criação da língua, uma vez que a literatura é transgressão. "As forças de liberdade que residem na literatura" vêm "do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua: desse ponto de vista, Céline é tão importante quanto Hugo, Chateubriand tanto quanto Zola". (Barthes, 2000, p. 17) É evidente que, mais que liberdade, a língua necessita de sabor e a literatura cumpre o papel de alimentar a linguagem escrita, a fim de minimizar seu aspecto protocolar. Disse Barthes: "Na ordem do saber, para que as coisas se tornem o que são, o que foram, é necessário esse ingrediente, o sal das palavras. É esse gosto das palavras que faz o saber profundo, fecundo". (Barthes, 2000, p.21)

Com isso, começa-se a distinguir língua literária da língua não-literária. A língua escrita, para alguns, deve obedecer a normas, regras pré-estabelecidas por gramáticos, deve ter coesão e coerência para se fazer entender por todos. Mas, o que é coerência? Para Ingedore, a coerência também deve estar ligada a um contexto, deve obedecer ao objetivo do texto (seja ele escrito ou falado), isto é, não basta escrever várias frases com sentido, é preciso escrever várias frases com sentido unitário entre as partes do texto, como se pode observar em:


A coerência está diretamente ligada à possibilidade de se estabelecer um sentido para o texto, ou seja, ela é o que faz com que o texto faça sentido para os usuários, devendo, portanto, ser entendida como um princípio de interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido deste texto. Este sentido, evidentemente, deve ser do todo, pois a coerência é global. (Koch, 2001, p.21)

Além disso, vale lembrar que a coerência textual relaciona-se com a coesão do texto, "pois por coesão se entende a ligação, a relação, os nexos que se estabelecem entre os elementos que constituem a superfície textual" (Koch, 2001, p.40). Contudo, a coesão não é suficiente para atribuir sentido ao texto, esse papel é confiado à coerência. Assim, "podemos dizer que a coerência dá origem à textualidade, entendo-se por textualidade "aquilo que converte uma seqüência lingüística em texto". " (Koch, 2001, p.45) Nesse sentido, o texto será incoerente se "seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta a intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras sócio-culturais, outros elementos da situação, uso dos recursos lingüísticos, etc. Caso contrário, será coerente". (Koch, 2001, p.50)

Na verdade, não se pode esquecer de que há diferentes tipos de textos e que cada um tem seu esquema estrutural. Sabe-se que textos narrativos são diferentes de textos dissertativos que são bem diferentes de textos descritivos que, por sua vez, são diferentes de textos poéticos ou de textos dramáticos.

Seja como for, pode-se retornar à diferença entre texto literário e texto não- literário. O texto literário é aquele que transgride a barreira da linearidade formal e soma à sua estrutura recursos conotativos, levando ao receptor a possibilidade de significados variados. E entende-se por texto não-literário aquele que tem a função principal de comunicar algo de forma objetiva, fazendo uso da função referencial, utilizando, para isso, a linguagem puramente denotativa.

Para Bakhtin, a língua literária pertence a um sistema ainda mais complexo que o da língua não-literária, já que "obedece a outros princípios, que pertence a língua literária, cujos componentes incluem também os estilos da língua não-escrita". (2000, p.285) Para Barthes, a língua literária "tenta escapar ao seu próprio poder, à sua própria servidão - encontramos algo que se relaciona com o teatro" (2000, p. 28). Barthes, em sua reflexão, tenta retirar da língua seu caráter normativo e atentar para a liberdade de criação de quem escreve, pois compara a língua ao teatro, ou seja, ao drama (radical grego que significa ato, ação).

Portanto, não se pode negar que a língua, na sua modalidade literária, fecunda neologismos, signos, símbolos; mistura prosa e poesia para parir idéias de forma autêntica, seduzindo e dando prazer não só a quem escreve como a quem lê.

Como diz Barthes: "Pode-se dizer que a terceira força da literatura, sua força propriamente semiótica, consiste em jogar com os signos em vez de destruí-los, em colocá-los numa maquinaria de linguagem cujos breques e travas de segurança arrebentaram". (2000, p.28-29)

Por outro lado, é incontestável que, apesar da língua ser multifuncional, deve-se, até pela situação limítrofe de monografar a importância do ato de escrever, tratar de isentar aqui o papel da universidade e, com isso, do professor de língua portuguesa, para o estudo - aprofundado - da escrita literária, no ambiente acadêmico, caso esteja ele - o docente - lecionando língua portuguesa em um curso de engenharia, medicina, administração ou contabilidade, por exemplo.
É importante ressaltar que não é objetivo do professor de língua portuguesa, nem da universidade, criar escritores de romances, de poemas, de crônicas, mas é sua função apresentar aos discentes diferentes tipos de textos e intenções para que estes saibam precisar a que estrutura da modalidade escrita devem recorrer quando solicitados a fazer um relatório, um projeto, uma resenha ou um ensaio acadêmico.

De qualquer forma, conhecimento nunca é descartável, no mínimo, atribui expressividade e, certo grau de criatividade ao texto não-literário. Além disso, em outro momento, mostrar-se-á a importância da leitura na construção da escrita. E, quando se pensa em leitura, pensa-se também, se não principalmente, em textos literários.

A Língua Portuguesa na Universidade

O aprendizado da nomenclatura dos elementos da língua acontece a partir da 3ª série do ensino fundamental e é reforçado durante as demais séries até o término do ensino médio.

Com o vestibular, cada vez mais interpretativo, a leitura começa a ganhar espaço nas aulas de língua portuguesa. Após a leitura de textos literários e não-literários, inicia-se um debate sobre a temática do texto que culmina com a proposta de elaboração de um texto sobre o assunto debatido. Difícil é receber todas as redações, pois muitos se esquivam da dramática tarefa de pôr no papel tudo que foi dito em sala.

A diferença básica entre o ensino médio e a universidade é que o discente universitário tem que colocar em prática o conteúdo que foi ensinado no ensino médio. No entanto, a língua portuguesa, nem sempre, foi ensinada da melhor maneira possível, isto é, com a intenção de, realmente, dar autonomia ao educando, a fim de que ele, agora, na universidade, saiba concatenar o conteúdo de todas disciplinas e possa elaborar um texto rico sintática e semanticamente.

É certo que as disciplinas são pluridisciplinares e não transdisciplinares. Não há aparente relação entre elas, nem dentro de uma mesma disciplina. Por exemplo, ensina-se ao aluno as orações subordinadas, mas o aluno não consegue usar conectivos, no seu texto, de forma correta. Ele só sabe, ou melhor, mal sabe dizer as nomenclaturas, como: " esta é uma conjunção adverbial concessiva." Ensina-se, na escola, ao aluno a pontuação, a separação silábica, as concordâncias e as regências verbal e nominal e, nem por isso, o universitário, aluno do ensino superior, consegue elaborar um "simples" texto. O aluno pensa que só se faz dissertação, no momento em que o professor de língua portuguesa assim determinar. O aluno não percebe que ao responder a um questionário de filosofia, ou de história, ele também está dissertando e deve, portanto, usar todos conhecimentos gramaticais aprendidos nas séries anteriores e deve utilizar seus conhecimentos de português, geografia, literatura, biologia, sociologia, enfim perceber as inter-relações entre as disciplinas.

Os alunos de universidades escrevem a todo momento, ou pelo menos, deveriam escrever constantemente, então por que eles escrevem tão mal? Por que não conseguem escrever textos coesos e coerentes? Por que muitas frases parecem estar desconexas? Por que os erros de pontuação, de ortografia e de acentuação são freqüentes no nível universitário? Será por causa da pouca, ou nenhuma, leitura extra-escolar? Será pelas facilidades do computador, com seu corretor ortográfico e seus softwares de concordância e regência? Será pelo relaxamento dos chats e e-mails, que sucumbem as vírgulas, os acentos e fazem uso de neologismos?

Não sabemos, mas é o que se quer descobrir também, o motivo da falência da expressão escrita. É imprescindível saber como são dadas, de fato as aulas de português hoje e como a produção de texto é incentivada e corrigida, se é que ela é tratada com destaque.

Portanto, o fato é que o ensino de língua portuguesa tem de passar por uma reformulação, ou melhor, deve seguir as novas exigências da educação e do mercado de trabalho, pois ambos defendem o fato de o aluno, ao sair da universidade, ser capaz de se comunicar a partir das modalidades oral e escrita com destreza e não com medos e erros que se igualam a erros de alunos dos ensinos fundamental e médio.

É preciso que os professores direcionem as aulas também para escrita, senão continuaremos tendo advogados com suas petições rejeitadas por falta de coesão e coerência; senão continuaremos a ler nos jornais e revistas palavras erradas; senão continuaremos ouvindo no rádio que já começou o "horário gratuíto"; senão continuaremos sem entender a receita que o médico acabou de passar, porque escreveu de qualquer jeito, uma vez que há muito tempo não escreve e, realmente, não se lembra mais de determinadas normas gramaticais. É preciso valorizar, novamente, a expressão escrita.

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Exercício: Faça um resumo do texto em, no máximo, 20 linhas. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Resumo: técnica de estudo

Resumo: técnica de estudo


1 Concepção e validade

A NBR 6028, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, define resumo como “apresentação concisa dos pontos relevantes de um texto”. Completa-se a definição afirmando ser o resumo: uma apresentação sintética e seletiva das idéias de um texto, ressaltando a progressão e a articulação delas. Nele devem aparecer as principais idéias do autor do texto.”
A finalidade do resumo é difundir as principais idéias do autor lido, de modo a influenciar e estimular o leitor à leitura do texto completo. Neste sentido, os resumos somente serão válidos quando explicitarem, de forma sintética e clara, tanto a natureza da pesquisa realizada, quanto os resultados e as conclusões mais importantes.

2 Como resumir: noções técnicas

Resumir significa fazer um comentário de alguma coisa. Um resumo deverá ser fiel às idéias do autor, apresentar uma estrutura capaz de revelar o fio condutor por ele traçado e expressar tal capacidade de síntese que se destaquem os conceitos fundamentais do texto. Também, é imprescindível ter um cunho pessoal que demonstre a assimilação individual do pesquisador que, alicerçado em seus interesses básicos, traçará os objetivos do resumo, classificando, informando ou criticando. Para melhor aproveitamento da leitura é preciso entender o texto, pois impossível resumir sem compreendê-lo. Para a identificação precisa do tema, não se deve resumir antes de ler o texto todo.
Veja-se, por partes, como fazer para encontrar a idéia principal de um parágrafo, de um capítulo ou uma secção, na obra.

Como encontrar a idéia principal no parágrafo?

Um parágrafo é uma idéia; um conjunto de frases que forma um todo constituído de uma idéia fundamental, em torno do qual giram idéias secundárias em determinado número de linhas.
Entendido o que seja um parágrafo deve-se enumerá-los no texto e, em seguida, sublinhar as idéias principais, fazendo-o com inteligência. Sublinhar com inteligência é uma arte que permite ao pesquisador colocar em destaque as idéias principais, as palavras-chave e os detalhes importantes. O ato de sublinhar favorece marcar o que é principal em cada parágrafo, permitindo realizar a revisão imediata. É importante sublinhar somente as idéias principais e os detalhes importantes. Não se deve sublinhar em demasia.
Observe-se que um parágrafo contém, como já foi referido, uma só idéia e geralmente começa com uma frase importante. Esta, em seguida, é explicada, ilustrada, acompanhada de frases que o resumem. Neste caso, a idéia principal está no início do parágrafo. Mas, atente-se que, isso não é regra. Muitas das vezes a idéia principal encontra-se no final do parágrafo. Na maioria das vezes, a idéia principal é parte de uma oração e não a oração inteira. Pode-se resumi-la em poucas palavras conforme o exemplo abaixo:
Parágrafo matriz para resumo:
Contra a possibilidade de uma ciência do comportamento há um outro argumento, a propósito do qual, ao longo dos séculos, se acumula uma literatura tão ampla quão pouco esclarecedora. Refiro-me ao argumento do livre-arbítrionão podemos formular leis relativas ao comportamento humano, porque os seres humanos são livres para escolher a maneira como irão agir. Reluto em dar atenção a essa discussão fútil, mas a omissão completa poderia ser, suponho eu, chocante; creio que o argumento é de importância especialmente para as ciências do comportamento, que deveriam, examiná-lo dos pontos de vista psicológico e sociológico para saber por que é tão persistentemente apresentado e por que merece acolhida tão firme.
Seguindo as indicações aqui estabelecidas pode-se extrair a idéia principal assim: Contra a possibilidade de uma ciência do comportamento, há o argumento do “livre-arbítrio”: não podemos formular leis de comportamento humano; os homens são livres para escolher. O argumento merece exame dos pontos de vista psicológico e sociológico.
É fundamental, para o bom entendimento do texto, adquirir o hábito de identificar a idéia principal em todos os parágrafos que se lê.

Como encontrar a idéia principal de um capítulo ou secção, na obra?

Cabe em qualquer leitura atentar para o sumário da obra, procurando informações nos títulos, subtítulos, intentando captar os passos do autor. Há de se observar a hierarquização das idéias: a mais geral para todo o trecho e as menos gerais apresentadas logo abaixo desta. O autor geralmente procura distribuir as idéias, valorizando-as.
Exemplo de hierarquização de idéias em um capítulo:
3 TEORIA DA PENA DE MORTE
3.1 Conceito de pena
3.2 Teorias da pena
3.2.1 Teorias da Retribuição (absolutas),
3.2.2 Teorias da Prevenção ou Teorias Finalistas (relativas)
3.2.3 Teorias Ecléticas (mistas)
3.3 Conceito de pena de morte

O que são detalhes importantes?

O próprio autor indica o que é importante para expressar seu pensamento. Assim, os exemplos, os argumentos, as ressalvas, as exceções, são detalhes importantes. Exemplo:
Nem todas as figuras que tipificam crimes contra a Administração Pública elencadas no Código Penal, do art. 312 ao art. 359, servem de base para a imputação do crime de lavagemPor exemplo, o disposto no art. 322, ao indicar que praticar violência, no exercício de função ou a pretexto de exercê-la é um crime de violência arbitrária e, não obstante praticado por funcionário público contra a Administração Pública, não guarda vínculo com a ocultação ou dissimulação de bens, direitos ou valores tocantes aos crimes de lavagem. (grifo nosso) (MOTA, 1996).

Finalmente, como redigir o resumo?

Segundo a NBR 6028 da ABNT, deve-se evitar o uso de parágrafos no meio do resumo. Portanto, o resumo é constituído de um só parágrafo, com no máximo 500 palavras. (Esse é o resumo que se faz nas monografias de graduação, dissertações e teses).
Para formular um resumo com a finalidade de aprendizado, alguns lembretes são necessários: sublinhar depois da primeira leitura feita, porquanto ter-se-á a noção do que trata o texto; sempre reconstruir o parágrafo a partir das palavras sublinhadas, num movimento integrador de idéias; evitar as locuções: “o autor descreve [...]” ou “neste artigo, o autor expõe que [...]”
Como se pode perceber, há algumas regras para a confecção do resumo, quais sejam: supressão, generalização, seleção e construção. Estas regrinhas, na verdade são etapas do próprio resumo.
Na supressão eliminam-se as palavras secundárias do texto (assim como: exemplos, reforços, esclarecimentos, advérbios, adjetivos, preposições, conjunções) desde que não se prejudique a compreensão.
generalização permite a substituição de elementos específicos por outros genéricos (exemplos: 1. no lugar de maçã, limão, pêra e laranja, usar a palavra frutas; 2. no lugar de regiões norte, sul, leste e oeste, do Brasil, utilizarregiões do Brasil).
seleção elimina as informações secundárias com a valorização das primárias.
construção é a fase na qual o autor cria uma nova frase, respeitando o conteúdo daquela que lhe inspirou (paráfrase).
Na formulação do resumo, o problema deve ser enunciado e as principais descobertas e conclusões devem ser mencionadas, na ordem em que aparecem no trabalho. O tratamento dado ao tema pode ser traduzido mediante uso de palavras como preliminarminuciosoexperimentalteórico. O resumo será redigido na terceira pessoa do singular (de preferência), em períodos curtos e com palavras acessíveis a qualquer leitor potencialmente interessado.

3 Tipos de resumo

Para o pesquisador, constitui-se o resumo num eficaz instrumento de trabalho. É uma síntese da obra em estudo e, sendo assim, pode apresentar-se sob três diferentes formas: resumo indicativo, resumo informativo, resumo crítico.
O resumo indicativo ou descritivo elimina quaisquer dados que não sejam aqueles essenciais. Refere-se às partes mais importantes do texto e, por ser tão simplificado, não dispensa a leitura do original.
Exemplo:
ROCCO, Maria Thereza Fraga. Crise na linguagem: a redação no vestibular. São Paulo: Mestre Jou, 1981. 184 p.
Estudo realizado sobre redações de vestibulandos da FUVEST. Examina os textos com base nas novas tendências dos estudos da linguagem, que buscam erigir uma gramática do texto, uma teoria do texto. São objetos de seu estudo a coesão, o clichê, a frase feita, o ‘não-texto’ e o discurso indefinido. Parte de conjecturas e indagações, apresenta os critérios para a análise, o candidato, o texto e farta exemplificação.
O resumo informativo reproduz com fidelidade a matriz, no que diz respeito às idéias principais e detalhes importantes.
Exemplo:
ROCCO, Maria Thereza Fraga. Crise na linguagem: a redação no vestibular. São Paulo: Mestre Jou, 1981. 184 p.
Examina 1500 redações de candidatos a vestibulares (1978), obtidas da FUVEST. O livro resultou de uma tese de doutoramento apresentada à USP em maio de 1981. Objetiva caracterizar a linguagem escrita dos vestibulandos e a existência de uma crise na linguagem escrita, particularmente desses indivíduos. Escolheu redações de vestibulandos pela oportunidade de obtenção de um corpus homogêneo. Sua hipótese inicial é a da existência de uma possível crise na linguagem e, através do estudo, estabelecer relações entre os textos e o nível de estruturação mental der seus produtores. Entre os problemas, ressaltam-se a carência de nexos, de continuidade e quantidade de informações, ausência de originalidade. Também foram objeto de análise condições externas como família, escola, cultura, fatores sociais e econômicos. Um dos critérios utilizados para a análise é a utilização do conceito de coesão. A autora preocupa-se ainda com a progressão discursiva, com o discurso tautológico, as contradições lógicas evidentes, o nonsense, os clichês, as frases feitas. Chegou à conclusão de que 34,85 dos vestibulandos demonstram incapacidade de domínio dos termos relacionais: 16,95 apresentam problemas de contradições lógicas evidentes. A redundância ocorreu em 15,25 dos textos. O uso excessivo de clichês e frases feitas aparece em 69,05 dos textos. Somente em 40 textos verificou-se a presença de linguagem criativa. Às vezes o discurso estrutura-se com frases bombásticas, pretensamente de efeito. Recomenda a autora que uma das formas de combater a crise estaria em se ensinar a refazer o discurso falho e a buscar a originalidade, valorizando o devaneio.
resumo crítico apresenta uma crítica congruente, com alicerce científico a respeito do texto em estudo. Será nesse caso, um resumo interpretativo, denominando-se resenha.
Cabe salientar que a resenha não é um simples resumo. Este é apenas um elemento da estrutura da resenha. O resumo não admite o juízo valorativo, o comentário, a crítica. A resenha exige tais elementos.
Exemplo de resenha de obra considerada no todo:
MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público.12. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. 2 v. 1644 p.

O Direito Internacional Público (DIP) é o ordenamento jurídico da sociedade humana na sua ampla acepção e, assim, há de ser eminentemente dinâmico, acompanhando-lhe a evolução. Interessa não apenas ao especialista, mas a todos. Toda a vida política, econômica, social e cultural está se internacionalizando, e o Direito Internacional é o instrumento deste processo. O Autor revela a preocupação de produzir obra de profundidade aliada à informação científica atualizada, indispensável ao estudo de um Direito que exige um cotejo permanente com os fatos, no seu desdobramento interminável. Esta 12ª edição apresenta-se revista, ampliada e atualizada, levando em consideração as transformações ocorridas no DIP após a última edição. Inicia a obra com uma excelente resenha doutrinária. Enumera e critica o melhor do pensamento jurídico internacionalista, sem que o Autor omita a sua posição, definida com clareza. A bibliografia citada não pretende ser exaustiva. Ela representa, de um modo geral, as fontes consultadas para a elaboração do capítulo ou parágrafo. Serve também de guia aos alunos para a elaboração de seus trabalhos práticos. Referindo-se a esta obra, disse o grande internacionalista Professor Franchini Netto: “o Autor, com modéstia, afirma que o livro se destina aos estudantes. Tenho a segurança de que maior é a área de sua utilidade. É obra que consagra seu jovem e brilhante Autor. Um trabalho que merece o aplauso dos estudiosos”.