Pesquise neste blog

Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador entrevista. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de abril de 2011

A experiência de quem escreve bem

26/10/2010

Uma brasileira no New York Times

Vejam que bacana a entrevista abaixo, que a leitora Lanna fez por e-mail e nos enviou:


"Em meados dos anos 90, época em que começou o curso de Publicidade da PUC do Rio de Janeiro, a baiana Fernanda Santos, 37, não imaginava que anos depois seria a única repórter brasileira de um dos maiores jornais do mundo: o "The New York Times".
Ainda morava no Rio quando trabalhou em uma revista corporativa, mas como não era oficialmente jornalista resolveu fazer mestrado no exterior em 1998. A partir de então a trajetória profissional de Fernanda foi de persistência e constante aprimoramento.
Na entrevista a seguir ela conta ao Novo em Folha, entre uma dica e outra, seu percurso até chegar ao Times: foi um "longo namoro" que se consumou depois de muito trabalho como freelancer, inclusive escrevendo desde a Colômbia. Tudo para provar para o jornal que podia escrever matérias longas e escrevê-las bem.

Confira:



Lanna Morais, para o Novo em Folha - Quantos anos você tem? Onde se formou em jornalismo?


Fernanda Santos - Tenho 37 anos e não me formei em jornalismo, mas em publicidade, pela PUC-RJ. Entrei para a faculdade com planos de estudar jornalismo, mas acabei fazendo mais amigos entre os que iriam estudar publicidade e concluí – erroneamente, mas só mais tarde fui descobrir isso – que a redação publicitária poderia me satisfazer tanto quanto a redação jornalística. Por essa razão, nunca pude ser efetivada em nenhum jornal no Brasil. Acabei trabalhando como estagiária em um pequeno jornal no Rio de Janeiro, mas ganhei a vida como redatora de uma revista de comunicação empresarial, um emprego que me proporcionou viajar por partes do Brasil que nunca havia imaginado conhecer e a países da América Latina que nunca havia aspirado visitar.
Cheguei a pensar a voltar à faculdade para concluir os créditos que me permitiriam ser formalmente chamada de repórter, mas achei perda de tempo. Decidi então tentar o mestrado no exterior e foi assim que acabei vindo para os Estados Unidos, onde cursei o mestrado de jornalismo impresso na Boston University em 1998-1999.




NF - Na faculdade você já sabia mais ou menos em que área iria atuar? Se não, como descobriu?


FS - Parte dessa resposta está acima, mas queria acrescentar uma coisa importante, que é o que mais me fascinou – e me fascina – no trabalho de jornalista: a licença que temos para penetrar mundos alheios, mundos secretos, vidas privadas, e assim revelar para os leitores como vivem essas pessoas, o que lhes incomoda/afeta/entristece/alegra. Vejo o jornalista como uma espécie de intérprete, cuja funcão é de aprender, digerir e relatar os assuntos e acontecimentos que presencia. Como saberíamos sobre o resgate dos mineiros no Chile? Como saberíamos sobre a opressão aos grupos de oposição política no Irã? Ou sobre os estragos da enchente no Nordeste, ou os efeitos da seca na mesma região? Como é que uma pessoa de classe média que mora em um grande centro urbano poderia entender a dinâmica da vida no morro? Enfim, sem o jornalista, não sei se a gente ligaria tanto pelo que se passa fora da bolha que habitamos nessa grande bola que é o planeta Terra.




NF - Na época de estudante, qual era o seu veículo dos sonhos? Tinha a pretensão de um dia chegar ao NYT? Você está no país e no jornal há quanto tempo?


FS - Nunca sonhei em trabalhar no New York Times quando estava no Brasil nem cheguei a sonhar em trabalhar no New York Times até um ou dois anos antes de vir trabalhar aqui. Sempre fui muito realista e sempre estive ciente da profundidade e alcance do meu talento. Nunca tentei dar passo maior do que as minhas pernas. Arriscar é importante, mas sou partidária do risco responsável. Quando contactei o NYT pela primeira vez, sabia que o conjunto do meu trabalho era abrangente o suficiente, e tinha suficiente qualidade, para competir com os trabalhos dos muitos outros jornalistas que queriam trabalhar no jornal.
Minha trajetória aqui foi clássica. Comecei em um jornal pequeno, cobrindo duas cidadezinhas no oeste do Massachusetts. Depois mudei para um jornal um pouco maior, em outra parte do estado. De lá vim para Nova York, para trabalhar como repórter no Daily News, onde cheguei recomendada por jornalistas que conheci durante a minha cobertura do 11 de setembro em Nova York; estava visitando amigos na cidade nessa data e acabei ficando para fazer reportagens. A conversa com o NYT começou depois que um dos seus repórteres elogiou uma matéria minha e mencionou o meu nome para a caça-talentos do jornal. Foi um namoro longo, que me levou a sair do Daily News e passar uns meses fazendo reportagens na Colômbia, como freelancer, para poder provar que podia escrever matérias longas e escrevê-las bem. (O Daily News tem formato tablóide, portanto suas matérias são  bem mais curtas que as do NYT.)
Fui contratada em setembro de 2005, portanto estou no NYT há 5 anos.




NF - Ter uma experiência de trabalho internacional é algo que muita gente gostaria. Como foi que surgiu a oportunidade de trabalhar nos EUA? E no NYT? É muito diferente de uma redação brasileira?


FS - Me pergunto por que tantos brasileiros querem trabalhar para meios estrangeiros, pois penso que seria muito legal trabalhar para um meio brasileiro no exterior. Eu adoraria voltar para o Brasil. O país é tão rico em histórias, tão cheio de pessoas fascinantes, de dramas de quebrar o coração e também de incríveis sucessos e vitórias.
Não sei se a redação daqui é diferente da redação daí. Nunca trabalhei em uma redação de jornal brasileiro.
Vim para cá para fazer o mestrado e o meu objetivo era de voltar e tentar usar o diploma do mestrado para obter a equivalência e sair buscando trabalho em jornais daí. Um dos meus professores na Boston University me disse que, como estudante estrangeira, tinha direito a um visto de trabalho de 1 ano para trabalhar na área que estava estudando. Achei que deveria aproveitar a oportunidade e ganhar experiência prática, então fui a uma conferência de jornalismo e conheci alguns editores de jornais, até que um me ofereceu um estágio de 3 meses e me efetivou no final. Nesse meio tempo, conheci o meu marido, que era jornalista na época (hoje trabalha em relações públicas). Me apaixonei, casei e nunca mais voltei. Estou casada há 10 anos e tenho uma filha de 1 ano e 4 meses, a Flora, que já fala palavrinhas em português, inglês e espanhol (sua babá é colombiana).




NF - Você escreve para qual editoria?


FS - Escrevo para a editoria Metro, que cobre primeiramente Nova York, mas também Nova Jersey e Connecticut.




NF - Você escreve textos extensos em um inglês impecável. Como aprendeu?


FS - Essa é uma pergunta que não sei responder. Aprendi inglês em cursinho no Rio, mas aprendi mesmo depois que mudei para os EUA. Li e leio muito para adquirir fluência. No começo acho que era claro para quem lia as minhas matérias que inglês não era o meu idioma nativo. Ainda não me sinto 100% e acho que nunca me sentirei, mas funciono bem nas duas línguas, e também no espanhol, que sou fluente. Aprender a escrever em outro idioma não é fácil, mas não é tão difícil se você se dedicar e for humilde. Eu nunca me senti ofendida quando um amigo, um editor ou mesmo o meu marido, que é americano, me corrigiam (e corrigem ainda). Pelo contrário: faço questão que as pessoas me digam se eu não falei algo bem.
O inglês é um idioma que adoro, muito gostoso para escrever, mas acho o português ainda mais rico.




NF - Você trabalha também para a Globo, ou seja, se comunica, também, com o Brasil. Há muita diferença entre escrever para o público americano e o brasileiro?


FS - A diferença principal é o idioma e confesso que é uma delícia poder escrever e falar português profissionalmente. Tinha saudades disso.




NF - Como foi que surgiu a oportunidade de trabalhar na TV? É tranquilo conciliar o NYT e o Globo News em Pauta?


FS - É uma loucura para conciliar os dois trabalhos, principalmente quando estou em deadline e ainda mais agora que o programa começa mais cedo por aqui, por conta do início do horário de verão no Brasil. Vai ser ainda pior em novembro, com o fim do horário de verão em NY, mas vamos lá! Vou levando até que dê. Normalmente, eu me maqueio no metrô, onde é também onde leio o material que coletei para me preparar para o programa. A correria é enorme, mas adoro ter essa conexão com o meu país.
Eu recebi uma ligação de um dos produtores da Globo por aqui, me convidando para uma conversa. Não sei como chegaram a mim, mas sei que sabiam que eu era brasileira e imagino que tenham achado interessante ter uma brasileira que é repórter do NYT como comentarista do Em Pauta.




NF - O Jornal do Brasil recentemente acabou com sua versão impressa. Essa questão do fim ou não do jornalismo impresso tem preocupado muito os estudantes de jornalismo aqui no Brasil. Como essa questão é vista aí nos EUA? Há uma preocupação? Você acha que o fim está próximo para as publicações impressas?


FS - Acho que as publicações impressas acabarão um dia, mas o jornalismo não, portanto o estudante não deve se preocupar e sim tentar cada vez mais aprender a ser jornalista usando as tecnologias disponíveis – programas de edição de blogs, audio e vídeo para Web, etc. O jornalista do futuro será um jornalista multimídia. A ideia de jornalista como o profissional que escreve para jornal é ultrapassada.




NF -  Você é, com certeza, um ótimo exemplo para os futuros jornalistas, afinal, trabalha em dois veículos de extrema importância. Que conselho você daria aos estudantes de jornalismo de hoje em dia? Tem alguma dica de leitura, algo que julgue essencial para a formação de bons profissionais?


FS - Prática e humildade. Vou explicar. Ler é bom, principalmente se a leitura é de matérias escritas por outros jornalistas – em revistas literárias, como a Piauí e a New Yorker; em revistas de notícias, como a Veja e a The Economist; em blogs, como o Huffington Post e Politico; e em jornais. Aconselho a ler um pouco de tudo, incluindo publicações cuja linha editorial o leitor não esteja de acordo. Sempre digo que para discordar com eficiência, o jornalista tem que saber como pensa o outro lado do debate, a outra facção. Discordar gritando é coisa de gente desinformada. Leia, por exemplo, os editorias do NYT e do Wall Street Journal para ver como duas das mais respeitadas publicações do mundo abordam o mesmo assunto de maneira totalmente diferente.
Acho o curso de jornalismo no Brasil, no geral, muito teórico. Jornalismo se aprende na prática, portanto trabalhe para o jornal da faculdade, faça estágios, escreva artigos freelancer mesmo que seja para o jornalzinho do seu bairro. Isso vai lhe dando experiência e lhe proporciona também colecionar clippings que você pode mostrar para um editor quando estiver procurando emprego.
Humildade é essencial porque mesmo quando você estiver entrevistando um analfabeto, pobre, desempregado, morador de favela, você não pode se esquecer de que essa é a pessoa que tem uma história para contar.Se você fosse melhor que ela, não estaria ali. Uma das coisas mais sensacionais do jornalismo é que nos mostra que, no fundo, no fundo, somos todos iguais.



Acompanhe o trabalho da Fernanda pelo Twitter (http://twitter.com/fernandaNYT), Facebook (http://www.facebook.com/FernandaNYT) e Globo News em Pauta (http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,JOR402-17665,00.html) - onde ela participa como correspondente três vezes por semana.
Assista à entrevista que Fernanda deu para a Revista Imprensa: Parte 1 (http://www.youtube.com/watch?v=w6R6-eu2nkI) e Parte 2 (http://www.youtube.com/watch?v=-14XGJDOjZk&feature=related)"
Escrito por Ana Estela de Sousa Pinto às 11h15


Exercício: Faça uma nota-resumo deste texto em no máximo dois parágrafos (média 10 linhas).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tecnologias e cultura oral

Em entrevista, professor Thomas Pettitt defende que novas mídias levam humanidade de volta à era pré-Gutenberg, da cultura oral

Publicada em 08/11/2010 às 09h04m








por Fernanda Godoy
Fonte Digital & mídia 








Thomas Pettitt especialista em mídia / Crédito: Divulgação
NOVA YORK - Thomas Pettitt tem provocado discussão nos meios acadêmicos ao afirmar que a Humanidade está voltando à cultura de transmissão oral de informação e conhecimento, tornando a época da imprensa escrita e dos livros apenas um parêntese na História. Professor de história da cultura na Universidade do Sul da Dinamarca, ele construiu a Teoria do Parêntese de Gutenberg para analisar uma época que teria começado com a invenção da prensa, no século XV, e terminado com a era da mídia eletrônica. "Estamos caminhando para um futuro pós-imprensa", disse ele, para mais adiante acrescentar: "Alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos".
Pettitt, que deu entrevista ao GLOBO por e-mail, criou sua teoria no espírito de cooperação que marca as redes sociais. Usou um conceito surgido em uma discussão entre professores e, com a permissão do autor, o colega Lars Ole Sauerberg, cunhou a Teoria do Parêntese de Gutenberg, pai da imprensa. Segundo ele, a era digital derruba barreiras entre imprensa tradicional e novas mídias. A sobrevivência dos meios de comunicação, garante, estará cada vez mais vinculada à sua credibilidade.

Estamos falando pelos dedos
O GLOBO: Estamos mesmo indo "de volta para o futuro", ou seja, passando por uma revolução que nos levará de volta a um passado no qual a cultura era oral, como diz a Teoria do Parêntese de Gutenberg?
THOMAS PETTITT: "De volta para o futuro" é um filme adorável, mas sempre penso sobre esse título. Imagino que, tendo viajado a um passado quando seus pais eram jovens, no fim do filme era hora de o rapaz voltar ao futuro de onde ele tinha vindo. No Parêntese de Gutenberg, a ideia é a oposta: estamos voltando ao passado ao nos movermos para o futuro. Afirmar que o futuro será uma volta ao passado não parece muito otimista. Haverá mais guerras, mais superstição e fundamentalismo, mais caças às bruxas e pragas, como na Idade Média? Fico feliz em poder dizer que a Teoria do Parêntese de Gutenberg não tem nada a ver com isso, embora meu colega L.O. Sauerberg não estivesse otimista quando inventou o termo. Ele é professor de literatura inglesa, e literatura é algo que se lê basicamente em livros. Então, se os livros estão acabando, isso pode ser o fim da literatura também. Não estou tão preocupado, porque estudo cultura medieval e sei que havia canções, histórias e encenações maravilhosas antes dos livros, então podemos esperar que as pessoas continuarão a fazer coisas incríveis com as palavras depois dos livros.

E como isso afeta os meios de comunicação?
PETTITT:O Parêntese de Gutenberg diz respeito a mudanças na maneira como comunicamos informação e histórias, de um lugar a outro e de um momento a outro. Pela lembrança e pela fala; por manuscritos; por livros, filmes, gravações e pela TV; por tecnologia digital e pela internet. Depois que a prensa foi inventada por Gutenberg, levou um tempo até que ela se espalhasse, mas por volta de 1600 o livro impresso tinha virado o meio dominante e de maior prestígio, e permaneceu nessa posição até recentemente, digamos, até o ano 2000. Agora, estamos usando meios tecnologicamente mais avançados que o livro, mas de certa forma se parecem com as tradições orais que o precederam. Da mesma forma que uma frase contém parênteses: eles interrompem a frase (mas, como estes, a modificam) e, quando o parêntese acaba, a frase continua onde a havíamos deixado antes da interrupção. Então, sim, estamos caminhando para um futuro pós-imprensa que, de certa forma, se parecerá com o passado pré-imprensa. Claro que ainda não chegamos lá: estamos na transição, na saída.

De que maneira a cultura da internet está resgatando e continuando a cultura pré-Gutenberg?
PETTITT:As semelhanças estão na maneira pela qual nos comunicamos por palavras: a maneira como lidamos com informações e narrativas que estão em palavras. Já temos há algum tempo meios eletrônicos como a TV, o rádio e o cinema, que voltam ao mundo da oralidade porque as palavras são faladas, e não vistas em uma página. Foi a isso que Marshall McLuhan se referiu quando disse que estávamos saindo da "Galáxia de Gutenberg". Nossas novas mídias (smartphones, laptops, tablets e suas conexões de internet) estão tomando conta dessa comunicação pelo som, e até ampliando-a. Claro que elas também são usadas, talvez até mais, para a comunicação pela palavra escrita, mas isso é feito de maneira diferente da usada pela imprensa. Em alguns dos meios mais difundidos (e-mails, SMS, Twitter), alguém pode receber uma mensagem escrita quase tão rapidamente como se estivesse falando com a pessoa. É como se estivéssemos falando pelos dedos, então a maneira de escrever é muito mais próxima da fala. As novas mídias também tornam mais fácil mexer em um texto.

Mesmo nas revoluções, o ponto da virada muitas vezes só é percebido quando já passou. Quais são esses pontos, até agora?
PETTITT: Não tenho certeza de que as pessoas não se dão conta das revoluções enquanto elas estão acontecendo. Mas, por outro lado, a natureza da mudança ou o ponto sem retorno pode nos escapar. Penso em dois momentos decisivos na nossa revolução. Um deles é o dia em que todos os livros (e jornais) forem criados em forma digital - suspeito que em muitos países este momento já passou. O outro é o dia em que todos os livros (e jornais) que já existiam tiverem sido escaneados e portanto existirem em forma digital - estamos muito próximos disso.

Até que ponto nossa percepção do mundo e nossa comunicação são determinadas pela tecnologia?
PETTITT: Esta pode acabar sendo a mudança mais importante de todas. Há coincidências interessantes entre revoluções na mídia e na maneira de pensar das pessoas. Alguns estudiosos veem uma conexão entre a difusão da imprensa e grandes mudanças na cultura europeia: o Renascimento, a Reforma, a revolução científica. Se isso for verdade, podemos esperar que nossa revolução digital tenha um efeito radical sobre a maneira de pensar. Minha teoria é que há uma conexão entre os livros e uma visão de mundo que separa as coisas em categorias rígidas. A tribo que chamo de "gente do livro" parece gostar de categorias. É apenas durante o Parêntese de Gutenberg que as pessoas insistiram tão "categoricamente" em que alguém é macho ou fêmea, negro ou branco, humano ou animal, ser vivo ou máquina. Na Idade Média, antes da imprensa, as misturas eram mais toleradas, e parece que estamos voltando a essa tolerância.

Na hora de decidir sobre a veracidade das notícias, o fator chave é a reputação do mensageiro
Qual a influência definitiva da era de Gutenberg para a Humanidade?
PETTITT:Difícil dizer. Daqui a um século, é possível que turistas visitem bibliotecas da mesma maneira que hoje nós vamos a museus para ver espadas e armaduras. A ideia de parênteses (já que parênteses modificam a frase que ele interrompe) sugere que não teríamos chegado onde estamos agora sem o período da imprensa. Mas isso não significa que ele é um estágio obrigatório de desenvolvimento. Deve haver muitas comunidades no que costumávamos chamar de Terceiro Mundo que eram analfabetas até pouco tempo atrás, ou que não tinham dinheiro para livros, e que passaram diretamente para os celulares e a internet, que simplesmente pularam o Parêntese de Gutenberg. A verdadeira questão é: a época da imprensa nos deu algo que não teríamos tido sem ela? E a resposta mais óbvia é: a História. Para as culturas alfabetizadas, o que aconteceu no passado está registrado em documentos, e a imprensa assegura que muitas cópias desses documentos sobrevivam, e há muitas cópias dos livros de História que discutem o que os documentos registram.

O senhor disse que, na era de Gutenberg, o impresso era visto como uma garantia da verdade, e que isso está deixando de existir. Com que rapidez isso está acontecendo?
PETTITT: As pessoas preferiam pensar de acordo com categorias, incluindo categorias de mídia. Então, a escrita é mais verdadeira do que a fala, e a imprensa, mais verdadeira que um manuscrito. Livros com encadernação de couro e letras douradas são tratados com mais respeito do que panfletos. É só quando você mesmo escreve um verbete de enciclopédia que se dá conta de que a capa de couro não prova nada.

Como a mídia tradicional pode se diferenciar neste mundo de abundância de informação?
PETTITT: Esta é uma das áreas nas quais a ideia do Parêntese de Gutenberg pode nos ajudar a prever ou a lidar com o futuro. As coisas estão mudando muito rapidamente. A maioria dos jornais complementou sua versão impressa com um site, e já foi previsto que dentro de 15 anos a maioria dos jornais existirá apenas na sua forma digital. Os jornais já não podem presumir que serão mais respeitados que outras fontes de informação devido ao seu formato. A imprensa está no caminho de saída, e qualquer veículo com patrocinadores generosos, não importa o quão errônea ou extrema sua mensagem, pode criar um website tão impressionante como o do mais respeitado jornal. Então, como os jornais podem convencer as pessoas de que sua mensagem é mais confiável e que vale mais pagar por ela? Estamos de volta à era pré-Gutenberg, quando os medievais recebiam notícias por meio de rumores, e as notícias de lugares remotos chegavam por estrangeiros. Como decidir em quem acreditar? A chave é a reputação, ou a fama. Essa era a coisa mais importante nas sociedades orais, e o mesmo pode acontecer nas sociedades digitais. Na hora de decidir sobre a veracidade das notícias, o fator chave é a reputação do mensageiro.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Resumo de entrevista em vídeo - Clóvis de Barros

Aluno em atividade: 


Assista aos sete vídeos da entrevista com Clóvis de Barros Filho e elabore um texto apontando os principais conceitos trazidos pelo entrevistado. (Limite de uma página).